A JAMAICA BRASILEIRA



A partir da segunda metade dos anos 1960, o reggae se espalhou pela Jamaica. Ele surgiu de maneira tão intensa que também chegou à Europa e aos Estados Unidos e se espalhou pelo mundo, chegando ao Brasil e conseqüentemente ao Maranhão. 

Conforme Silva (2001) não se sabe bem como o reggae chegou a São Luís do Maranhão. Muitas são as histórias e versões contadas pelos colecionadores, discotecários, donos de radiolas, djs e locutores de rádio. Uma das histórias mais aceitas é que esse estilo musical chegou à capital, São Luís, penetrado em terras maranhenses pelo Porto Itaqui em São Luís, trazida por marinheiros oriundos da Guiana Francesa, que trocavam os discos de vinil com os maranhenses por mercadorias. Outra versão é que no começo dos anos 1970, um apreciador de músicas caribenhas daquela época chamado, Riba Macedo, teria tido acesso a alguns discos de reggae vindos de Belém (estes, por sua vez, contrabandeados da Guiana Francesa) e teria começado a levá-los a festas “regadas” aos sons do Caribe, festas promovidas por donos de radiolas, como “Carne Seca” (José de Ribamar Maurício Costa). 

Os freqüentadores destas festas, mesmo não sabendo o nome daquele ritmo, aprovaram a sua cadência mais vagarosa e já buscavam seus pares no momento em que os “reggaes” eram executados. Dançavam-no de forma similar aos outros ritmos caribenhos, num intenso deslizar de corpos, com movimentos de muita sensualidade. Desta “interferência de passos” nasceu uma das particularidades do reggae maranhense, o dançar agarradinho, e, hoje, “[...] São Luís é o único ou um dos poucos lugares do mundo onde se dança reggae aos pares” 


Dentre tantas histórias, o que se extrai de mais importante é que, esse estilo musical conquistou o Maranhão e com suas batidas lentas, e boas de dançar e curtir o reggae se firmou em terras maranhenses. 


Segundo Silva (1995), o reggae chegou a São Luís, e agradou aos moradores da ilha, principalmente da periferia da capital. O fato do Maranhão possuir grande quantidade de negros assim como a Jamaica, resulta em certa identificação étnica, assim como um gosto comum por ritmos de origem africana. Assim, o reggae caiu nas graças da população maranhense. Os cantores que fizeram sucesso em anos atrás na Jamaica, ainda estão presentes nas festas de reggae de São Luís. Os sucessos que se ouviam antigamente e atualmente na Jamaica, são os mesmos que se ouvem hoje em São Luís, um reggae cadenciado e lento, dançado aos pares nas pistas dos clubes de reggae de todo o estado, por conta dessa adoração pelo ritmo jamaicano. São Luís tornou-se um circuito independente na história do reggae.

“São Luís: trata-se de um mundo à parte, com gírias próprias (Ex: pedras, é um grande sucesso do reggae, uma música que agita a galera nas festas) e ídolos particulares como Eric Donaldson e Gregory Issacs, São Luís é auto-suficiente”. (ALBUQUERQUE, 1997, p. 151).

O não era fácil curtir o ritmo do reggae em São Luis, os donos de radiolas e colecionadores, pagavam quantias muito altas para ter exclusividade sobre um LP, alguns donos de radiolas chegavam a financiar viagens de algumas pessoas para a busca de LPs raros na Jamaica, Holanda e França. O que impulsionou a disputa das radiolas foi a exclusividade sobre os LPs, os donos de radiolas que possuíam LPs com reggaes comoventes e raros ganhavam a preferência dos regueiros, que iam aos bailes em busca de reggaes envolventes e novos, para dançar ou somente para ouvir, e as radiolas possuidoras destes reggaes tinham a preferências dos regueiros que compareciam em grande número nos shows. Esta “[...] capacidade de manter a exclusividade fonográfica garante a alguns proprietários de radiolas a permanecer em evidência junto à comunidade regueira, e, por sua vez, é a comunidade que nesse ranking elege os melhores, independente do tempo de existência da radiola ou do clube.” (Silva, 2001, p.121). 

O reggae não foi o primeiro ritmo a ser tocado pelas radiolas do Maranhão. Antes do reggae elas tocavam outros ritmos caribenhos, tais como a salsa, o merengue e o bolero. Estes ritmos eram dançados nos salões de São Luis e do interior (principalmente da baixada maranhense) até meados dos anos de 1970. Os freqüentadores destes salões de dança mesmo não sabendo o nome daquele ritmo, aprovaram sua cadência mais vagarosa, e já procuravam seus pares no momento em que o discotecário começava a tocar os reggaes. E dançava o reggae de forma parecida aos outros ritmos caribenhos, num intenso deslizar de corpos, com movimentos de muita sensualidade e entrega ao ritmo dançado. Desta maneira de dançar, nasceu uma das particularidades do reggae maranhense, o “dançar agarradinho” e, hoje, “[...] São Luís é o único ou um dos poucos lugares do mundo onde se dança reggae aos pares” (SILVA, 1995, p.25). 

Desta forma, o reggae foi aos poucos se firmando em terras do Maranhão e no gosto musical dos maranhenses, e na década de 80/ começo da década de 90, firmou-se em São Luis como o principal ritmo da periferia da capital, que passou a ser chamada de Jamaica Brasileira ou Capital Brasileira do Reggae, neste momento de grande aceitação deste ritmo por parte da população, as radiolas quase não tocavam mais outro ritmo; sua preferência passou a ser a execução de reggaes que, a partir daquele momento, tornaram-se verdadeiras pedras preciosas (SILVA, 1995, p.53). 

Atualmente o reggae está disponível para download na internet, porém as radiolas ainda buscam os LP’s originais, uma vez que “a essência do reggae maranhense é o chiado da bolachinha” (SILVA, 1995, p. 57).

O reggae no Maranhão é dividido em dois grupos, o mais antigo que veio da Jamaica, chamado de Reggae Roots cantado por grandes ídolos mundiais como Bob Marley, Peter Tosh, Jimmy Cliff, Gregory Isaac e vários outros, caracterizado pelo uso do baixo e da bateria em primeiro plano, deixando os outros instrumentos como acompanhamento secundário. O outro, é o que vem sendo mais pedido e tocado em festa é o reggae eletrônico, o mais recente tipo de reggae que é cantado por cantores locais como Toty, Rosy Valença, Dub Brown, Mr. Clebber, Ricardo Luz e vários outros, que vêm fazendo com que o reggae eletrônico de São Luís ganhe destaque em todo país. O reggae dos cantores maranhenses é caracterizado pelo uso do contrabaixo elétrico e pelo bumbo da bateria, alguns utilizam até o teclado elétrico. Hoje cantores internacionais de reggae moram em São Luis como, Eric Donaldson, Sly Fox, Roney Boy e Bill Campbell que fazem sucesso e são grandes ídolos do reggae Maranhense. 

A exclusividade mantém-se não mais por meio de viagens internacionais, mas pela encomenda de músicas pelos proprietários das radiolas. Com isso, cantores jamaicanos que moram em São Luís, como Norris Colle e Bill Campbell ou mesmo cantores locais como Dub Brown, compõem suas músicas (às vezes até ao gosto da radiola), vendem-nas e um contrato de exclusividade é cumprido; a música só poderá ser executada pela radiola que a encomendou até o lançamento do cd do cantor. Estas encomendas musicais são negociadas a preços astronômicos, e pode-se, certamente, inferir-se por meio deste fato que a posse de exclusividades ainda é a grande vedete do reggae.

O público do Reggae

Segundo Silva (1995), em São Luís existem mais de 100 salões de reggae espalhado em toda capital maranhense, inclusive, em áreas nobres de São Luís. O reggae é freqüentado por todos: negros, brancos, jovens, adultos e pessoas da terceira idade. 

Quando alguém fala do ritmo, os ludovicenses já o relacionam a lazer, alegria, modo de se divertir com os amigos. Em São Luís, quem gosta de reggae é regueiro que busca curtir as melhores pedras. 

Hoje, na capital ludovicense é comum ver uma criança na porta de casa dançando reggae, pois nascem ouvindo o ritmo. O reggae acontece todos os dias em bares, em clubes e salões que apresentam o ritmo como atrativo.

“(...) é possível encontrar diariamente crianças dançando reggae nas ruas ao som dos programas de rádio, no universo regueiro de São Luís não se toca reggae nacional e na falta de entendimento das letras as musicas são apelidadas de melo, os próprios DJs já apresentam as musicas com o nome da melo conhecida” (SILVA, 2001, p.115).

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